Blog do Jetro

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

20 anos de ambientalismo: muitos avanços ideológicos e poucos resultados práticos...

Escrito por Jetro Menezes, Colunista de Plurale.
Em 20 anos de ambientalismo, já vi de tudo. Ações e decisões boas e outras não tão boas assim. Exemplos das boas: leis que surgem aos montes, programas de coleta seletiva que vão pipocando nas prefeituras e nas empresas, a criação e os investimentos de todas as esferas de Governo para as cooperativas de catadores, a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a exigência de Planos Municipais para as prefeituras, entre outros programas. Exemplos das não tão boas: a falha na fiscalização ambiental em todas as cidades, o enfraquecimento ou esvaziamento dos Conselhos das Bacias Hidrográficas, a educação ambiental rasa e pouco crítica, raros programas de coleta seletiva implantados em cidades e empresas, uso e ocupação do solo sem a menor consideração com os aspectos ambientais, com invasão de áreas de mananciais, córregos poluídos e falta de saneamento básico expressos em números cada vez mais assustadores.
De tudo o que vi nesses anos, porém, o mais decepcionante na área de meio ambiente é o efeito inexpressivo dos cursos de gestão ambiental, sejam técnicos ou superiores. Grande parcela dos formados nessa área nos últimos 10 anos não está atuando no mercado. Tenho contato com amigos que estudaram comigo e que ainda não estão atuando no setor. Se os cursos foram criados, entendo que seriam para atender uma demanda do mercado. Da mesma forma, entendo que há espaço para a atuação de muitos gestores ambientais nas empresas e principalmente nas prefeituras. Os municípios estão carentes de profissionais técnicos e os gestores ambientais estão prontos para arregaçar as mangas. Esses profissionais podem elaborar o Plano de Gestão de Resíduos para as prefeituras, conforme exigido na PNRS, podem criar um Programa de Educação Ambiental, organizar um Programa de Arborização, criar um Programa de Coleta Seletiva e muito mais. Os setores público e privado precisam da figura do gestor ambiental para solucionar problemas e levar respostas para suas cidades e empresas.
Outro dia fiquei triste ao conversar sobre o assunto com um Ambientalista - com “A” maiúsculo - numa padaria em São Paulo. Ele, fundador de um instituto ambiental de renome, mostrou-se desanimado. Inclusive, está abrindo mão do instituto porque uma profunda falta de perspectiva tomou conta dele. Sua desistência se baseia nas formas, no mínimo estranhas, de relação com a sociedade civil organizada. O único lado bom desse fato é que meu amigo Ambientalista vai doar livros, vídeos e cartilhas para a Prefeitura de Mairiporã, em São Paulo.
Minha experiência em meio ambiente não começou em faculdade e não foi por modismo, mas pela paixão. Fui aprender na prática. Comecei a pesquisar sobre a área de resíduos sólidos em 1994 no Limpurb (Departamento de Limpeza Urbana do Município de São Paulo). Fui muito bem recebido e consegui um excelente material técnico que tem servido de base até os dias atuais. Fundei um movimento de cultura e meio ambiente que realizava eventos abertos ao público. Aprendi a fazer papel reciclado. Li muito, me formei como gestor ambiental, fiz especialização em saneamento ambiental e auditoria ambiental. Sou docente universitário na disciplina de gestão ambiental, consultor ambiental num escritório próprio e tenho uma vasta experiência em gestão pública. Nessas andanças pelas prefeituras, tive a oportunidade de escrever dois Planos de Gestão de Resíduos e dois Programas de Coleta Seletiva, sementes que espero ver germinarem.
Depois de tanto envolvimento, cheguei à conclusão de que, nesses primeiros 20 anos de ambientalismo, muito se falou e pouco se fez de fato! Fazer eventos, do tipo “pão e circo”, para comemorar o Dia do meio ambiente não são suficientes para gerar consciência crítica. Plantio de árvores sem controle e manutenção não tem futuro certo. As prefeituras não estão preparadas para atender demandas nas áreas de meio ambiente, pela falta de quadros técnicos capacitados – apenas cerca de 10% dos municípios brasileiros entregaram os seus respectivos Planos de Resíduos, repito, exigidos por lei. A sociedade tem se alimentado de teoria. Sempre surge uma terminologia nova para um tema antigo e as pessoas ficam vislumbradas. Hoje, o termo sustentabilidade já se desgastou e o preferido passou a ser “logística reversa”.
Tratar gestão ambiental nas cidades de cima para baixo é continuar o mesmo erro cometido em anos de gestão equivocada. Meio ambiente deve ser discutido e construído no âmbito local. A Agenda 21 Local tem essa função e deveria ser um instrumento obrigatório para todas as prefeituras e empresas.
Espero que nos próximos 20 anos o meu texto seja mais animador, motivador, positivista. Espero não escrever mais sobre uma educação ambiental de baixíssimo impacto na sociedade. Espero que daqui a 20 anos, mais de 60% do lixo coletado no Brasil sejam reciclados. Que a água seja tratada e fornecida a todos e o tratamento de esgoto seja uma realidade em todas as cidades brasileiras. E que seja possível contribuir com a formação de mentes críticas para fazer a diferença nas suas cidades e nas suas empresas.